James Mason in LolitaSupermercado pra mim sempre foi uma coisa hilária. Sabe, todos aqueles produtos empacotados, organizados em corredores, e você vai passando com o carrinho entre eles e fazendo a colheita ou a caça do mês sem a menor necessidade de lanças ou de bravura. E ainda aquela musiquinha impessoal embalando o ambiente estéril sobre o qual giram as rodinhas do carrinho de supermercado.
As pessoas, bem vestidas - ou não - e muito calmas, selecionando à dedo o que vão querer para o jantar. São tantas opções! Da seção dos importados à seção dos enlatados… tudo atesta uma preguiça crônica, uma frieza, naquilo que um dia foi um momento decisivo na nossa sobrevivência: conseguir comida.
Tudo bem que hoje nós lutamos por outras coisas - por dinheiro -, mas isso não torna o supermercado um lugar menos ridículo. Fico imaginando um homem das cavernas andando entre as fileiras de produtos, hesitando em tocá-los por que era simplesmente fácil demais para ser verdade.
E em meio à calma das compras eu andava esses dias. Duas crianças brigando com a mãe por algum produto que ela não podia ou não queria pagar, dois senhores discutindo a qualidade do doce de pêssego industrialmente caseiro - de boininhas e sobretudos idênticos, a única coisa que os diferenciava eram os cachecóis e o talhe da barba branca -, um casal planejando um jantar à dois, e na seção de vinhos…
Eu sempre achei a seção de vinhos o oásis do supermercado. Passei por ali com a minha cestinha de plástico - parecia a única, por que todo o resto dava preferência ao bom e velho carrinho.
Foi aí que eu tive a nítida impressão de que estava vendo James Mason escolher vinhos na seção de vinhos (oh, não diga!) de um Nacional de Porto Alegre. Tá, tá certo… não era ele. Mas era muito, muito, muitíssimo parecido. O sobretudo de tweed era marrom-escuro, e ele usava calças pretas e sapatos de couro da mesma cor. Sim, sim… eu reparei, e daí? Ele tirou um óculos de aros grossos do bolso interno do casaco, e posicionou-os em fente aos olhos, cerrando-os um pouco para ver melhor a procedência do vinho, a safra, a marca… largou-o na prateleira. Continuou a analizar os rótulos, com os óculos na ponta do nariz jamesmasoniano (whatahell?), coçando o queixo em desagrado, até que finalmente, com um sorriso involuntário e vitorioso, ele agarrou uma das garrafas - cara, por sinal - e colocou-a no carrinho, junto com o pacote de macarrão, o creme de leite, o saquinho de ervas finas, e outras coisas as quais não tive tempo de reparar, pois ele empurrou o carrinho, passando por mim e sumindo ao dobrar à esquerda.
Lá se foi James Mason, o cara dos oclinhos de aros grossos, o cara do sorriso vitorioso dado à toa, o cara que comeria macarrão com molho branco àquela noite, e leria um bom livro sentado à lareira - pois James Mason precisa ter uma lareira -, o cara que ergueu as sobrancelhas grossas para mim, quando notou que eu também analisava os rótulos das garrafas, o cara que eu encontrei no mundo insano do supermercado, que eu não vou voltar a ver, mas ainda assim o cara sobre o qual eu me prestei a escrever nesta tarde inútil.
Então me despedi do James Mason do supermercado, e voltei para a casa da minha avó devorando uma Traquinas meio-a-meio.
Eu sou muito doente, mesmo.

Pronto. Nara e Cadu, comentem ù.u iuahsiausha